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27/07/2012

Resenha - Serena


Nome: Serena
No Original: Sweeth Tooth
Autor (a): Ian McEwan
Páginas: 384
Editora: Companhia das Letras
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: Ao ser contratada pelo MI5, o Serviço Secreto Britânico, a protagonista Serena se vê como participante de uma mentira cujo objetivo é fomentar a criação de uma ficção. Isso porque ela é incumbida de estabelecer contato com um escritor a quem não pode contar que é uma espiã, nem que o dinheiro que ele passará a receber virá do Estado. Mas o contexto de toda essa armação é uma guerra muito real, num período bastante violento da história da Inglaterra, especialmente por causa da atividade do IRA. E, para Serena, o caso envolve ainda sua vida pessoal, tanto no que se refere a seu antigo amante, que a introduziu no MI5, quanto no que se refere ao escritor que é vítima do ardil, por quem acaba se apaixonando. Ela é, portanto, agente e vítima, personagem e criadora, num romance em que todos esses papéis são questionados com fervor. Ora, ao conhecermos a ficção de Tom Haley, o escritor que não sabe que está na folha de pagamento da Inteligência Britânica, já notamos essa curiosa relação entre o real e o fictício, mediada pelo criador.

Ok. Eu nunca tinha lido um livro do autor apesar de ter ouvido muitos elogios a sua narrativa. Não sei como começar. O livro me causou impressões contraditórias. Serena foi lançado primeiro aqui no Brasil, fato inédito e curioso, que me deixou com mais vontade de ler o livro. Espiões em uma Inglaterra da década de 70, em plena Guerra Fria e com o IRA no auge do poderio. Ian McEwan narra uma história ambiciosa, que mescla tão habilmente elementos da história que em muitas partes fica difícil discernir o que é ficção.

A história de Serena começa com ela contando que é filha de um Bispo anglicano que por insistência da mãe foi cursar Matemática em Cambridge ao invés de Letras. Mas não se saiu tão bem quanto esperava. Era bem diferente de ser a melhor de sua pequena cidade. Serena sempre leu muito, lia páginas em menos de um minuto e foi na faculdade que começou a se interessar por política e pelo cenário mundial. Após participar de alguns artigos numa revista do campus ela conhece Tony Canning. Um ex-agente do MI5 que vê potencial e lhe introduz nesse mundo. Ela passa a estudar para a entrevista e ler coisas mais interessantes. Depois de um rompimento desastroso, Serena segue para Londres sozinha onde passa na entrevista e começa a trabalhar no posto mais baixo. Algum tempo depois ela é chamada para uma missão. Uma tarefa simples se ela não se envolvesse demais com mais de uma pessoa.

A partir daí a trama se desenvolve. É uma trama muito ampla, portanto não dá para explicar melhor. Se você juntar o parágrafo acima com a sinopse já tem um quadro mais amplo do enredo do livro. O que mais impressiona e encanta é o cenário e o contexto histórico. O autor discorre sobre a guerra fria, sobre comunismo, sobre a sociedade e o comportamento da época usando personalidades reais na ficção. Muitos diálogos e passagens são pura reflexão, através do posicionamento de Serena é possível, conhecer e entender o papel do serviço secreto naquela época e muito interessante. Por esse lado a obra é maravilhosa. Fiquei encantada com a maior parte dos comentários. A forma como o autor fala do uso da literatura pelo serviço secreto e pela CIA é bem interessante e real. Gostei dos resumos que Serena fez dos contos de Haley e também dos detalhes gerais sobre literatura.

O meu único problema foi a personagem e sendo parte fundamental de toda a trama isso vem a ser um problema grande, difícil de explicar sem ser ambivalente. Serena é uma personagem diferente, não consegui gostar dela. Ela soa tão estúpida, tão presunçosa, comete erros que qualquer pessoa com o mínimo de autocrítica perceberia que estava fazendo algo equivocado. O modo como ela se comporta com Max e como ela se coloca num pedestal de beleza e importância. Não sei, não funcionou. Tem características que podem até ser de mulheres da década de 70, mas são bem bobas. Tudo isso misturado com uma máscara de inocência e até mesmo ignorância. O final poderia ter redimido a personagem, mas ao contrário disso deixou-a em uma posição mais estranha ainda. Uma personagem dúbia, que ou você vai amar ou odiar.

Um livro de ritmo cadenciado e que deve ser lido sem pressa. Ian McEwan tem uma escrita direta, clara e que usa todos os recursos que a ambientação permite. Não posso dizer que adorei, mas é um bom livro. Foi bom conhecer a Londres da década de 70. Fiquei curiosa para saber mais sobre aquele período em especial. A edição da Companhia das Letras está ótima, fonte muito agradável de ler e a capa felizmente não tem aquela bola vermelha impressa. É apenas um adesivo, felizmente fácil de retirar. Recomendado para os que gostam de um romance mais fino, com um cenário histórico intrínseco a trama. Vale muito a pena pelo papel que a literatura tem na obra. Recomendo também aos que não conhecem o autor e aos que estão em busca de uma leitura diferente, de outro nível. Leiam! Até mais!

22/06/2012

Resenha - Cosmópolis


Nome: Cosmópolis
No Original: Cosmopolis
Autor (a): Don DeLillo
Páginas: 200
Editora: Companhia das Letras
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: Aos 28 anos, o empresário Eric Michael Packer fez fortuna com a especulação nas bolsas de valores de todo o mundo. Num certo dia do ano 2000, ele acorda e contempla a cidade de seu triplex no prédio residencial mais alto do mundo, em Nova York. Decide cortar o cabelo. O presidente da República está na cidade, os mercados estão nervosos, um protesto antiglobalização toma conta de Times Square e o trânsito está abarrotado. Acompanhado do motorista e de seguranças, Eric demora o dia inteiro para percorrer dez quarteirões de Manhattan em sua limusine equipada com bar, banheiro, monitores conectados à internet e câmaras de vídeo. Eric especula contra o iene, cuja cotação, segundo seus cálculos, deve começar a cair a qualquer momento. A moeda japonesa, porém, sobe sem parar. Durante a viagem, Eric encontra várias vezes por acaso a mulher com quem se casara poucos dias antes, a também milionária Elise. A relação deteriora a cada encontro, pois ela percebe que ele a trai sucessivas vezes ao longo do caminho. No decorrer do dia, as certezas e os valores de Eric se mostram vazios e sua vida entra em colapso. O empresário perde mais e mais dinheiro - e também toda a fortuna de Elise -, até que o sistema financeiro global é arrastado para uma grave crise. A história revela mais do que a falta de sentido de uma existência individual: ela aponta para o caráter perigosamente ilusório das bases que sustentam o mundo contemporâneo.

Quando recebi as opções de livro desse mês estava inclinada a pedir outro, fora da lista, mas eu estava com muitos livros grandes para ler e a possibilidade de sair da minha zona de conforto literário animou algo dentro de mim. Já tinha ouvido falar do sucesso do filme de David Cronenberg e decidi arriscar. Estava na hora de ler algo diferente. E realmente foi isso que aconteceu. "Cosmópolis" é um livro para poucos. Difícil de ler, repleto de alegorias e com um tom sátiro que ora funciona muito bem e ora torna a narrativa chata.

A história de Eric se passa no ano 2000 e em apenas um dia. Eric é brilhante, detalhista e se tornou um prodígio no setor financeiro com suas previsões de mercado e uso de teorias matemáticas para examinar padrões e prever o comportamento da economia e por consequência das bolsas de valores. É odiado e amado por seu talento. Em um dia particularmente quente e confuso Eric passa o dia em sua limusine no trânsito de NY. A última previsão dele parece estar errada e já perdeu milhões antes mesmo de o dia chegar à metade, mesmo assim não ouve os conselhos que recebe. É com esse fundo que acompanhamos a confusão que é a história de Cosmópolis. No caminho Eric passa por diversos lugares e faz diversas coisas dentro da limusine. É nesse cenário que conhecemos um personagem estranho, complexo, desligado de qualquer humanidade, obcecado com sua saúde e que já perdeu o prazer pelo que faz. Ganhar dinheiro e acertar suas previsões virou mero jogo. No transcorrer do dia, diversos acontecimentos e encontros interferem ainda mais no emocional de Eric.

A narrativa é estranha e o ritmo é como um fôlego longo alternado com quebras rápidas. Os pensamentos do personagem no meio dos diálogos transforma o livro e algumas passagens são muito malucas. Não estou certa que compreendi muito bem o protagonista. A maioria dos seus diálogos são inteligentes e filosóficos, mas não fazem sentido. Ele vive alheio a relações emocionais verdadeiras. De todas as conversas ficou a impressão que ele fala sozinho, sabe tão alheio as outras pessoas. O autor consegue lá em 2003 de uma sociedade muito parecida com a atual. No transcorrer do dia Eric vai acumulando observações sobre as ruas lá fora. O fluxo da cidade, as pessoas, e sobre ele mesmo. Não é um tipo de narrativa que agrada a muitos e não funciona muito bem na construção de uma trama sólida. Tanto que o livro acontece mesmo é na parte final. Ali alguma coisa é construída para chegar aquele desfecho.

É uma leitura que se você distrair um minuto tem que voltar e ler de novo o trecho. Estou muito curiosa para assistir ao filme e ver como ficou afinal o filme foi elogiado pela crítica e o livro também é um sucesso de crítica. Uma desconstrução da modernidade e do capitalismo. Eric é o resultado da sociedade moderna. É para questionar o que esse mundo faz conosco. Dos temores as relações. A edição da Companhia das Letras é padrão, fonte boa de ler e a capa reflete a cidade em movimento. Não é um livro que eu recomendo para todo mundo. É mais para os que gostam de um romance diferente, complexo e que vai fazer você pensar um pouco. São 200 páginas e a despeito do ritmo é um livro que vale a pena ler. É um estilo diferente de escrita e de vez em quando bom variar na hora de ler, conhecer outros horizontes. Até mais!

09/06/2012

Resenha - Jonathan Strange & Mr Norrell


Nome: Jonathan Strange & Mr. Norrell
No Original: Jonathan Strange & Mr. Norrell
Autor (a): Susanna Clarke
Páginas: 824
Editora: Companhia das Letras
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: A prática da magia foi considerada extinta da Inglaterra desde os tempos medievais do Rei Corvo. Em 1806, aqueles que se intitulam magos são apenas estudiosos da história da magia. Mas, um dia, dois desses magos teóricos resolvem investigar os motivos do desaparecimento da magia. E assim conhecem Mr. Norrell, um mago recluso que desafia a todos ao mostrar seus poderes. Para provar que a magia ainda existe, Mr. Norrell reúne os magos teóricos na catedral de York e faz com que as estátuas de pedra comecem a falar. Em troca de seu ato, exige a imediata dissolução da Sociedade de Magos. Agora com fama e poder, ele abandona a reclusão e vai para Londres, onde colabora com o governo no combate a Napoleão Bonaparte. Começa então a colocar em prática seu plano secreto de controlar a magia na Inglaterra. Tudo vai bem, até o momento em que seu discípulo, o arrogante e impetuoso Jonathan Strange, resolve se rebelar contra a visão restrita de Norrell sobre o lugar destinado à magia. Strange decide seguir seu próprio rumo como mago e resgatar os poderes do lendário Rei Corvo, mas acaba colocando em risco a si próprio, aos que o cercam e à toda a Inglaterra.

Desde que vi esse livro fiquei encantada. Como eu podia ter deixado passar um livro desses? Não sei como, mas só descobri essa preciosidade este ano. Tinha duas opções comprar ou pedi-lo através da parceria com a Companhia das Letras. A ansiedade era tanta que perguntei a Diana, que cuida da parceria, no mesmo dia. Foi dando pulinhos que recebi uma resposta positiva e recebi-o como livro de abril. Além da sinopse atrativa e do número de páginas o livro vinha acompanhado de uma frase de Neil Gaiman, que é um dos meus autores favoritos. Adicione ai o fato que a autora demorou dez anos para escrever o livro e você tem a fórmula da curiosidade urgente.

Bruxos, magos, feitiços, Inglaterra do século XIX e muito mistério. O enredo de Jonathan Strange & Mr. Norrell é quase obsceno de tão intricado, longo e minucioso. Imagine um livro de história da magia que Hermione pegaria na biblioteca de Hogwarts. Essa é uma das coisas que pensei em quanto lia. É uma espécie do passado de Harry Potter. A origem da magia, dos bruxos, das escolas, etc. Claro, que tudo contado de maneira magnifica. A trama não tem nada de chato, de repetitivo ou intenção de parecer com esse ou aquele livro. Essa referência que fiz é puramente impressão, coincidência, chame do que quiser. A autora levou dez anos montando detalhadamente a história dos dois magos que trouxeram de volta a magia para a Inglaterra. Eu vos apresento: Mr. Norrell e Jonathan Strange.

Antes de qualquer coisa eu preciso falar de John Ukglass, mas conhecido como o Rei Corvo. Foi ele que trouxe a magia para o mundo do homem. Reinou em quatro reinos ao mesmo tempo. Na Inglaterra e no reino dos seres encantados, os faërie. Esse é o fundo, a origem da magia aqui. O rei Corvo viveu anos de sua vida no reino encantado, onde estudou com os seres a magia. Ele criou feitiços e tinha enorme poder. Quando voltou ao mundo dos homens trouxe a magia consigo e assim os bruxos, magos surgiram. Desde o desaparecimento do rei Corvo a magia estava restrita, esquecida nos recantos da memória do povo.

Mr. Norrell é o único mago praticante da Inglaterra e viaja por todos os cantos comprando a qualquer preço livros de magia e sobre magia. O intuito dele é erradicar todas as associações de magos teóricos. Já faz muito tempo que a magia deixou de ser praticada e os bruxos se tornaram teóricos. Afundados em livros e mais livros sobre magia. Para Norrell isso é um veneno. O mau uso de uma arte tão refinada. A magia relegada a meias dúzias de homens ignorantes que só por ler um texto qualquer sobre mágica se intitulam magos.

John Segundus é um mago teórico e havia acabado de chegar ao condado de York em busca de alguém capaz de praticar magia. Desafiado pela associação de magos teóricos do condado Mr. Segundus e Mr. Honeyfoot partem para uma visita surpresa a Mr. Norrell, que após relutar concorda em provar que a magia ainda pode ser praticada. A única condição era que a associação de magos do condado de York fosse desfeita e todos eles assinassem um documento se comprometendo a passar longe da magia. Após isso Norrell dá voz a todas as pedras da abadia local e depois do feito decide que vai trazer a magia de volta. Ele será o único mago da Inglaterra. O plano é ir para Londres e usar magia para ajudar o governo na guerra contra Napoleão e erradicar qualquer lembrança do rei Corvo. Para ele o conceito de que a mágica está condicionada, ligada diretamente a seres encantados é absurdo.

Chegando a Londres o status de único mago verdadeiro e praticante da Inglaterra lhe abre as portas após realizar um feitiço perigoso, contra o que Norrell prega. Ele só fez para chamar atenção das pessoas para magia: ressuscitou uma pessoa. Norrell consegue tudo o que quer e ainda obtêm sucesso para a Inglaterra na guerra. Com medidas rígidas Norrell destilada sua teoria para todos que encontra e impõe suas regras. A única coisa que perturba o sossego de Norrell é Vinculus. Um mago de rua e segundo Norrell um farsante vagabundo. Vinculus solta uma profecia que outro mago ia surgir. Um mago que mudará tudo. E é a ai que entra Jonathan Strange.

O básico é isso. Bastante não é mesmo? Mas eu precisava contar essa parte para introduzir você a história. Isso não é nem um terço do livro. Depois disso muitas coisas acontecem. Reviravoltas, tramas paralelas, acontecimentos que parecem não ter nada a ver ou levar a lugar nenhum se unem em um final surpreendente. A narrativa de Clarke é inteligente, descritiva na medida certa e todos os detalhes fora pensados. Durante a história existem várias referências a histórias passadas, casos de feitiços, e bruxos famosos. Todas elas são contadas nos rodapés das páginas. É um universo muito bem elaborado. A autora pensou em todos os detalhes. Histórias dentro de histórias. É perfeito.

Um personagem que vale citar é o "cavaleiro dos cabelos de algodão". Fantástico. Muito maluco, perverso e até engraçado. São vários personagens. Todos bem construídos e com várias sutilezas. Outra coisa que não quero esquecer: os feitiços. Alguns teriam ficado perfeitos em Harry Potter. Para contar alguns: trocar cidade de lugar, espiar amigos e inimigos através de qualquer espelho, mudança do clima. Acima disso tudo Jonathan Strange & Mr. Norrell fala de relações de amizade, poder, conhecimento, diferenças de pensamentos. Além disso está presente a cultura da época, os costumes, as diferenças entre a Inglaterra do norte e do sul.

Não é atoa que Sussana Clarke demorou dez anos para escrever esse livro. Ele pensou em tudo. O livro é profundo em sua mitologia e nas relações humanas. Não ficou nada sem explicar. É um livro para ser lido com calma, descoberto página por página. Um livro que você lê uma grande parte hoje, para, e amanhã continua com ânimo renovado. E ainda termina querendo mais. Neil Gaiman estava certo, é pouco, é curto. Ficaria épico se adaptado para o cinema pelo diretor certo. Podia dividir em dois filmes. Os direitos foram comprados em 2004 pela New Line Cinema, a mesma que demorou séculos para tirar do papel "O Hobbit". Ou seja, deve sair, mas vai demorar. A edição da Companhia das Letras está perfeita. Fonte agradável, folha lisa amarelada boa para longas horas de leitura e sem erros. O livro assim como no exterior foi lançado com duas opções de capa: preto e branco. O meu é preto. E já aviso que não tem como escolher. É questão de sorte. A não ser que você compre direto na livraria. Leiam! Não percam essa chance. Gosta de romance, magia, suspense e fantasia? Leia. Aliás, se você gosta de livro, leia. É isso. Ficou longo, mas foi necessário. Até mais para quem leu até o fim!

17/02/2012

Resenha - O Palácio de Inverno


Nome: O Palácio de Inverno
No Original: The House of Special Purpose
Autor (a): John Boyne
Páginas: 456
Editora: Companhia das Letras
Comprar: Siciliano - Saraiva - Cultura - Fnac
Sinopse: Na primeira vez em que alterou o curso da história, em 1915, o então jovem camponês russo Geórgui Jachmenev conseguiu impedir um atentado à vida do grão-duque Nicolau Nicolaievitch, irmão do czar. Esse involuntário ato de bravura acaba por assegurar a Geórgui um lugar de honra na corte de Nicolau II, que o nomeia guarda-costas pessoal do seu filho, o também adolescente Alexei Romanov. Em 1981, agora cidadão britânico e funcionário aposentado da biblioteca do Museu Britânico, o octogenário Jachmenev, enquanto vela pela saúde da esposa Zoia, que vive os últimos estágios de um câncer devastador, deixa a memória flutuar, recordando aleatoriamente os fatos de sua vida, grande parte deles ligados diretamente a eventos históricos que transformaram o séc XX. Rasputin, Winston Churchill, um amigo de Charles Chaplin, o último czar russo e outros personagens históricos de vulto misturam-se às pessoas comuns do imaginário de Jachmenev, à medida em que sua memória vai aproximando os dois momentos mais importantes de sua trajetória, aquele que conquistou o amor de sua vida e aquele em que está prestes a perde-lo de forma definitiva.
Primeiro livro que recebi através da parceria com a Companhia das Letras e um livro que estava há mais de ano em minha lista de leitura. Um mergulho na história da Russa no início do século XX, do início da primeira guerra mundial, passando pela revolução russa e uma pincelada na segunda guerra. Através das memórias de um simples mujique do suspiro final do império russo e toda a tragédia que se sucedeu. O estilo inconfundível de Boyne em um narrador acima de qualquer crítica.

Geórgui Jachmenev passou mais de 50 anos acostumado com a proximidade com a morte de sua esposa Zoia. Agora com o câncer incurável e decisão dela de não lutar contra o inevitável Geórgui mergulha em lembranças do passado. Ele tinha 16 anos quando a história de sua vida mudou drasticamente. Extremamente pobre ele vivia com a família da aldeia de Cáchin, uma das tantas abandonadas pelo império, onde sofria com a indiferença do próprio pai e convivia com a sonhadora irmã. Foi na passagem do comandante do exército e primo do czar pela aldeia que os eventos se sucederam. Em um instante corria em direção do melhor amigo tentando evitar que ele atirasse no comandante, em seguida acordava na cama com a dor de um tiro no ombro. Ele não conseguiu ajudar o amigo, tinha evitado o atentado e salvo o primo do czar. Seu amigo jazia enforcado na rua e como gratidão ao ato heroico ele seria levado à corte em São Petersburgo. Lá ganha à confiança do czar Nicolau II e se torna guarda-costas de Alexei Romanov, garoto de 11 anos, herdeiro de todo o império russo. Convivendo não só com Alexei como com as filhas do czar, com a czarina e com o sórdido rasputin.

Extasiado com a vida no palácio de inverno Geórgui esquece sua origem e sua família chegando a negar ajuda a irmã. Desde o primeiro dia em São Petersburgo ele caiu de amores por Anastácia, a filha mais nova do czar sendo correspondido nesse amor impossível. Encontros escondidos e juras de amor. Uma relação inocente e perigosa. Em meio à riqueza e o luxo do palácio Geórgui se vê em meio de intrigas, fofocas e perigosas armações. Presencia as brigas do czar com a esposa, compartilha do segredo da doença de Alexei e acompanha de perto as mudanças decorrentes da guerra. A tensão nos corredores, a apreensão do czar e sua aparência gradualmente cansada e envelhecida. Geórgui narra tudo isso do presente,  entre capítulos sobre sua vida atual, sua vida no palácio de inverno e sua vida pós-fuga da Rússia conhecemos os mistérios e segredos que atormentam tanto a alma de Zoia. Contar e reviver todas as memórias foi a forma de dizer a si mesmo o porquê de Zoia nunca ter se perdoado e nunca ter deixado de se sentir culpada. Os anos na Inglaterra, a morte do amigo na França, o trabalho para os ingleses durante a segunda guerra, a filha morta atropelada e principalmente o medo de ser encontrado depois de fugir da Rússia. Sendo que eles eram.

Durante todo livro o autor não faz questão de nos fornecer falsas pistas ou impressões, ele deixa a narrativa nos conduzir por entre os anos e pouco a pouco vem a confirmação das nossas suspeitas. Para quem conhece a história Russa, do fim do império e da revolução não foi uma surpresa, mas ainda sim por vários capítulos cheguei a duvidar. John Boyne continua mestre em passear por períodos históricos. Ele conta sua história sem descaracterizar o que realmente aconteceu. Ao terminar o livro procurei sobre o período relatado e foi incrível ver que alguns detalhes poderiam muito bem ter acontecido. Ele pegou algo que ficou no ar e transformou na história de Geórgui e Zoia. A narração em primeira pessoa impede de nos vermos a história pelo lado de Zoia, mas isso representa pouco quando temos a sinceridade de Geórgui e do ponto de vista de um homem de 80 anos que passou por tudo o que ele passou. Um narrador livre de pintar a verdadeira história como fazem os mais jovens. Sem atos heroicos ou atitudes bravas, apenas a história da sua vida.

Uma história de amor incondicional, companheirismo e lealdade. Um menino que foi leal até o fim, um menino que conheceu o outro lado da moeda e que assistiu a história sem poder fazer. É um livro que com o passar dos capítulos vai ficando cada vez mais difícil não se apegar com tantos sentimentos e emoções. A edição da Companhia das Letras é muito boa, não encontrei erros e fiquei surpresa com a diagramação. Eu esperava o mesmo modelo de Coração de Tinta e claro que me enganei, afina são dois selos diferentes. Recomendo o livro a todos. Não diria que é um romance histórico, não concordo com essa denominação. Indico aos que se identificaram com a primeira frase desse parágrafo e para todos que gostam desse tipo de ambientação histórica. Até mais!

31/01/2012

Parceria - Companhia das Letras

É com muita felicidade que divulgo a sétima editora parceira do Cultivando a Leitura. Antes que qualquer coisa quero agradecer a editora por ter escolhido o blog. É muito bom ter o trabalho reconhecido e ser escolhido dentre tantos inscritos. Foram mais de 450 blogs e estou mesmo muito feliz.

Uma biblioteca se faz com leituras possíveis. Todo livro que se compra é um projeto de leitura. Diante da página impressa, o leitor está sozinho com sua imaginação, o único lugar onde cada um pode viver o que deseja.

A Companhia das Letras foi fundada em 1986. Nos primeiros doze meses de existência, lançou 48 títulos; em 2009, foram mais de 250. Em 24 anos, publicou quase 3 mil títulos, de 1300 autores, incluindo os lançamentos dos outros selos da editora: Companhia das Letrinhas, Cia. das Letras, Companhia de Bolso, Quadrinhos na Cia., editora Claro Enigma e Penguin Companhia.

Literatura e ciências humanas são, desde o início, as duas principais séries editoriais da Companhia das Letras. Elas se ramificam em: ficção brasileira, ficção estrangeira, poesia, policiais, crítica literária, ensaios de história, ciência política, antropologia, filosofia, psicanálise. Outras séries ganharam corpo: fotografia, gastronomia, divulgação científica, biografias, memórias e relatos de viagem, ao lado de projetos especiais.

Criado em 1992, o selo
Companhia das Letrinhas tem como proposta editar livros afinados com a sensibilidade infantil, capazes de mobilizar nas crianças sua capacidade cognitiva, seus desejos de autoexpressão, sua necessidade de organizar o mundo. O selo Cia. das Letras, que surgiu em 1994, desenvolve duas linhas básicas: de um lado, publica livros de ficção e não ficção voltados para pré-adolescentes e adolescentes; de outro, obras de interesse para diferentes faixas etárias, como O mundo de Sofia, O menino do pijama listrado e a coleção Desventuras em Série.

Uma mesma proposta de trabalho dá unidade ao catálogo da editora: publicar livros que, pela qualidade do texto e da produção gráfica, sejam um convite à leitura.
Algumas obras do extenso catálogo da editora:

 Confira o catálogo completo aqui.

Espero que a parceria seja boa não só para o blog como também para a editora e principalmente para os leitores do blog. Aproveitando para avisar que ainda esse mês saí resenha do primeiro livro da trilogia Millenium. Até daqui a pouquinho com a resenha de "O Mar de Monstros"!

05/10/2011

Guia de Lançamentos - Companhia das Letras, Seguinte, Paralela, Penguin Companhia, Suma de Letras, Alfaguara, Objetiva

Fundada em 1986 por Luiz Schwarcz e Lilia Moritz Schwarcz nos fundos da gráfica Cromocart, que pertencia ao avô de Luiz, a editora surgiu com foco original em literatura e ciências humanas, sempre atenta à qualidade do texto, das traduções, do projeto gráfico e do acabamento em todas as etapas do processo de edição. Rumo à Estação Finlândia, do americano Edmund Wilson, foi um dos quatros primeiros títulos publicados e logo se tornou um grande sucesso; no total foram 48 lançamentos no primeiro ano. Hoje são 16 selos dedicados aos mais variados segmentos. 

Ao longo dos anos, a editora selou importantes parcerias, entre elas a com os irmãos Moreira Salles, que se tornaram sócios em 1989. Em 2009, foi a vez de cruzar o Atlântico e se juntar à Penguin para lançar a coleção de clássicos universais e nacionais no mercado brasileiro. Em 2011, a Penguin adquiriu 45% das ações da Companhia das Letras. Da junção da editora paulista Companhia das Letras com a carioca Objetiva, em 2015, nasceria o Grupo Companhia das Letras, que reúne o mais expressivo acervo de escritores e poetas brasileiros —  e um catálogo estrangeiro que prima por prêmios Nobel e pesos-pesados da literatura. 

Aqui no Guia você acompanha tudo o que sai mês à mês. Da esquerda para direita e de novo. 

Última atualização: 17/12/2016

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