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09/06/2012

Resenha - Jonathan Strange & Mr Norrell


Nome: Jonathan Strange & Mr. Norrell
No Original: Jonathan Strange & Mr. Norrell
Autor (a): Susanna Clarke
Páginas: 824
Editora: Companhia das Letras
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: A prática da magia foi considerada extinta da Inglaterra desde os tempos medievais do Rei Corvo. Em 1806, aqueles que se intitulam magos são apenas estudiosos da história da magia. Mas, um dia, dois desses magos teóricos resolvem investigar os motivos do desaparecimento da magia. E assim conhecem Mr. Norrell, um mago recluso que desafia a todos ao mostrar seus poderes. Para provar que a magia ainda existe, Mr. Norrell reúne os magos teóricos na catedral de York e faz com que as estátuas de pedra comecem a falar. Em troca de seu ato, exige a imediata dissolução da Sociedade de Magos. Agora com fama e poder, ele abandona a reclusão e vai para Londres, onde colabora com o governo no combate a Napoleão Bonaparte. Começa então a colocar em prática seu plano secreto de controlar a magia na Inglaterra. Tudo vai bem, até o momento em que seu discípulo, o arrogante e impetuoso Jonathan Strange, resolve se rebelar contra a visão restrita de Norrell sobre o lugar destinado à magia. Strange decide seguir seu próprio rumo como mago e resgatar os poderes do lendário Rei Corvo, mas acaba colocando em risco a si próprio, aos que o cercam e à toda a Inglaterra.

Desde que vi esse livro fiquei encantada. Como eu podia ter deixado passar um livro desses? Não sei como, mas só descobri essa preciosidade este ano. Tinha duas opções comprar ou pedi-lo através da parceria com a Companhia das Letras. A ansiedade era tanta que perguntei a Diana, que cuida da parceria, no mesmo dia. Foi dando pulinhos que recebi uma resposta positiva e recebi-o como livro de abril. Além da sinopse atrativa e do número de páginas o livro vinha acompanhado de uma frase de Neil Gaiman, que é um dos meus autores favoritos. Adicione ai o fato que a autora demorou dez anos para escrever o livro e você tem a fórmula da curiosidade urgente.

Bruxos, magos, feitiços, Inglaterra do século XIX e muito mistério. O enredo de Jonathan Strange & Mr. Norrell é quase obsceno de tão intricado, longo e minucioso. Imagine um livro de história da magia que Hermione pegaria na biblioteca de Hogwarts. Essa é uma das coisas que pensei em quanto lia. É uma espécie do passado de Harry Potter. A origem da magia, dos bruxos, das escolas, etc. Claro, que tudo contado de maneira magnifica. A trama não tem nada de chato, de repetitivo ou intenção de parecer com esse ou aquele livro. Essa referência que fiz é puramente impressão, coincidência, chame do que quiser. A autora levou dez anos montando detalhadamente a história dos dois magos que trouxeram de volta a magia para a Inglaterra. Eu vos apresento: Mr. Norrell e Jonathan Strange.

Antes de qualquer coisa eu preciso falar de John Ukglass, mas conhecido como o Rei Corvo. Foi ele que trouxe a magia para o mundo do homem. Reinou em quatro reinos ao mesmo tempo. Na Inglaterra e no reino dos seres encantados, os faërie. Esse é o fundo, a origem da magia aqui. O rei Corvo viveu anos de sua vida no reino encantado, onde estudou com os seres a magia. Ele criou feitiços e tinha enorme poder. Quando voltou ao mundo dos homens trouxe a magia consigo e assim os bruxos, magos surgiram. Desde o desaparecimento do rei Corvo a magia estava restrita, esquecida nos recantos da memória do povo.

Mr. Norrell é o único mago praticante da Inglaterra e viaja por todos os cantos comprando a qualquer preço livros de magia e sobre magia. O intuito dele é erradicar todas as associações de magos teóricos. Já faz muito tempo que a magia deixou de ser praticada e os bruxos se tornaram teóricos. Afundados em livros e mais livros sobre magia. Para Norrell isso é um veneno. O mau uso de uma arte tão refinada. A magia relegada a meias dúzias de homens ignorantes que só por ler um texto qualquer sobre mágica se intitulam magos.

John Segundus é um mago teórico e havia acabado de chegar ao condado de York em busca de alguém capaz de praticar magia. Desafiado pela associação de magos teóricos do condado Mr. Segundus e Mr. Honeyfoot partem para uma visita surpresa a Mr. Norrell, que após relutar concorda em provar que a magia ainda pode ser praticada. A única condição era que a associação de magos do condado de York fosse desfeita e todos eles assinassem um documento se comprometendo a passar longe da magia. Após isso Norrell dá voz a todas as pedras da abadia local e depois do feito decide que vai trazer a magia de volta. Ele será o único mago da Inglaterra. O plano é ir para Londres e usar magia para ajudar o governo na guerra contra Napoleão e erradicar qualquer lembrança do rei Corvo. Para ele o conceito de que a mágica está condicionada, ligada diretamente a seres encantados é absurdo.

Chegando a Londres o status de único mago verdadeiro e praticante da Inglaterra lhe abre as portas após realizar um feitiço perigoso, contra o que Norrell prega. Ele só fez para chamar atenção das pessoas para magia: ressuscitou uma pessoa. Norrell consegue tudo o que quer e ainda obtêm sucesso para a Inglaterra na guerra. Com medidas rígidas Norrell destilada sua teoria para todos que encontra e impõe suas regras. A única coisa que perturba o sossego de Norrell é Vinculus. Um mago de rua e segundo Norrell um farsante vagabundo. Vinculus solta uma profecia que outro mago ia surgir. Um mago que mudará tudo. E é a ai que entra Jonathan Strange.

O básico é isso. Bastante não é mesmo? Mas eu precisava contar essa parte para introduzir você a história. Isso não é nem um terço do livro. Depois disso muitas coisas acontecem. Reviravoltas, tramas paralelas, acontecimentos que parecem não ter nada a ver ou levar a lugar nenhum se unem em um final surpreendente. A narrativa de Clarke é inteligente, descritiva na medida certa e todos os detalhes fora pensados. Durante a história existem várias referências a histórias passadas, casos de feitiços, e bruxos famosos. Todas elas são contadas nos rodapés das páginas. É um universo muito bem elaborado. A autora pensou em todos os detalhes. Histórias dentro de histórias. É perfeito.

Um personagem que vale citar é o "cavaleiro dos cabelos de algodão". Fantástico. Muito maluco, perverso e até engraçado. São vários personagens. Todos bem construídos e com várias sutilezas. Outra coisa que não quero esquecer: os feitiços. Alguns teriam ficado perfeitos em Harry Potter. Para contar alguns: trocar cidade de lugar, espiar amigos e inimigos através de qualquer espelho, mudança do clima. Acima disso tudo Jonathan Strange & Mr. Norrell fala de relações de amizade, poder, conhecimento, diferenças de pensamentos. Além disso está presente a cultura da época, os costumes, as diferenças entre a Inglaterra do norte e do sul.

Não é atoa que Sussana Clarke demorou dez anos para escrever esse livro. Ele pensou em tudo. O livro é profundo em sua mitologia e nas relações humanas. Não ficou nada sem explicar. É um livro para ser lido com calma, descoberto página por página. Um livro que você lê uma grande parte hoje, para, e amanhã continua com ânimo renovado. E ainda termina querendo mais. Neil Gaiman estava certo, é pouco, é curto. Ficaria épico se adaptado para o cinema pelo diretor certo. Podia dividir em dois filmes. Os direitos foram comprados em 2004 pela New Line Cinema, a mesma que demorou séculos para tirar do papel "O Hobbit". Ou seja, deve sair, mas vai demorar. A edição da Companhia das Letras está perfeita. Fonte agradável, folha lisa amarelada boa para longas horas de leitura e sem erros. O livro assim como no exterior foi lançado com duas opções de capa: preto e branco. O meu é preto. E já aviso que não tem como escolher. É questão de sorte. A não ser que você compre direto na livraria. Leiam! Não percam essa chance. Gosta de romance, magia, suspense e fantasia? Leia. Aliás, se você gosta de livro, leia. É isso. Ficou longo, mas foi necessário. Até mais para quem leu até o fim!