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01/11/2013

[Convidado] - Resenha - Elantris


Nome: Elantris
No Original: Elantris
Autor (a): Brandon Sanderson
Tradutor (a): Márcia Blasques
Páginas: 576
Editora: LeYa
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: Elantris era conhecida como a cidade dos deuses. Nela, uma benção chamada Shaod transformava as pessoas em semideuses. Porém, há dez anos, as coisas começaram a mudar e a magia transformou Elantris em uma cidade amaldiçoada, onde as pessoas tocadas pela Shaod se transfiguravam em seres sem vida e sem sentidos próprios. A maldição os tornava mortos-vivos e a cidade tornou-se um cemitério de zumbis.

Elantris, publicado pela Tor, em 2005, e pela editora LeYa, em novembro de 2012, foi o primeiro romance publicado por Brandon Sanderson e tornou-se rapidamente um dos meus favoritos. Elantris era uma cidade grande e reluzente, povoada por pessoas que foram abençoadas pelo Shaod, uma poderosa magia que transformou as pessoas em "deuses". Isso foi até 10 anos atrás, quando um evento cataclísmico fez com que a magia de Elantris falhasse, transformando seus cidadãos-deuses em mortos-vivos incapazes de executar até mesmo a mais básica magia que mantinha a cidade. Elantris agora se assemelha a um deserto de ruínas, uma prisão para as pessoas amaldiçoadas pela Shaod isolado do resto do mundo.

Raoden, o Príncipe da Arelon, foi amaldiçoado pelo Shaod e lançado em Elantris. Ele quer saber o que fez a magia falhar de modo que ele possa recuperar sua vida e restaurar Elantris à sua antiga beleza. Sarene, a princesa de Teod, está noiva de Raoden embora eles nunca se encontraram. Ela acaba de chegar em Arelon onde foi dito que seu noivo estava morto. Ela quer descobrir o que realmente aconteceu com Raoden ao mesmo tempo em que está tentando parar o Gyorn em sua missão de converter Arelon. Hrathen, um Gyorn da religião Derethi, é conhecido por converter nações inteiras Shu-Dereth seja qual for o meio necessário. Ele chegou em Arelon com um prazo: ele tem apenas três meses para conseguir uma conversão pacífica do povo de Arelon.

Elantris é um grande exemplo de como criar personagens e histórias que são fortes o suficiente para se levantar por conta própria em um mundo maciçamente complexo e maravilhoso. Com tantas religiões, nações e locais, cada um com sua própria história e complicações, pode ser difícil entender tudo e isso coloca a história em risco de se perder em um mar de sobrecarga de dados. Há uma curva de aprendizado bastante íngreme no início do livro e para as primeiras páginas 50-100 achei difícil de tornar totalmente imerso, no entanto, uma vez que tenha sido dada toda a informação necessária você entra na história e se encontra profundamente tentando resolver os mistérios do mundo. Este é um livro que trabalha a ideia de que todo mundo tem um segredo e Sanderson usa essa ideia para se certificar de que a trama continua a ser o ponto central, dando a cada personagem claramente definidos, objetivos relacionáveis ao permitir que o leitor tente descobrir todas as informações ao mesmo tempo em que os personagens.

Os três personagens principais e todo o elenco de apoio são todos escritos soberbamente, cada um com sua própria história, que lhes dá uma perspectiva única sobre a vida. Eles são pessoas complexas, com suas próprias forças e fraquezas colocadas em situações desconhecidas que são projetados para testar severamente a sua determinação. O que mais gosto é que Sanderson criou um monte de personagens que são legais, eu quero conhecê-los, quero que eles tenham sucesso, eu quero que eles sejam felizes. Eles são pessoas reais com problemas reais, definidos por suas ações e da maneira em que lidam com as consequências destas ações. As pessoas são a verdadeira história de Elantris, observando como esses personagens crescem quando eles são forçados a superar todos os obstáculos colocados em seu caminho é muito gratificante.

A história é contada pela rotação do ponto de vista no final de cada capítulo de Raoden para Sarene para Hrathen e depois volta para Raoden. Estes pontos de vista são agrupados em três, referido por Sanderson em seu site como "tríades", com cada ponto de vista na tríade ocorrendo em aproximadamente o mesmo tempo (ou pelo menos no mesmo dia). Isso lhe dá uma percepção do mesmo problema a partir de três pontos de vista diferentes que lhe dá uma compreensão muito maior da história, mas ao custo de estimulação.

Se você não leu ainda, coloque-o em sua lista. O ritmo lento pode ser um pouco frustrante às vezes, mas os personagens são convincentes sem falar dos mistérios intrigantes. Ao fazer um monte de grandes personagens e colocá-los em um mundo maravilhoso e misterioso, Sanderson conseguiu criar uma história original e poderosa que mostra como o ser humano pode significar muitas coisas para muitas pessoas.

Escrito por:

03/09/2012

Resenha - Jogador Nº 1


Nome: Jogador Nº 1
No Original: Ready Player One
Autor (a): Ernest Cline
Páginas: 464
Editora: LeYa
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: Um mundo em jogo, a busca pelo grande prêmio. Você está preparado? O ano é 2044, e o mundo real está numa terrível situação! Como a maioria das pessoas, Wade Watts escapa de sua desanimadora realidade passando horas e horas conectado ao Oasis, que é uma utopia virtual que permite a seus usuários ser o que eles quiserem, um lugar onde você pode viver e se apaixonar em qualquer um de seus milhares de planetas. E, como a maioria da humanidade, Wade sonha em encontrar o grande prêmio que está escondido nesse mundo virtual. Em algum lugar desse playground gigante, o criador do Oasis escondeu uma série de enigmas que premiará com uma enorme fortuna e um poder muito grande aquele que conseguir desvendá-los. Durante anos, milhões de pessoas tentaram, sem sucesso, encontrar esse prêmio, sabendo apenas que os enigmas de Halliday se baseiam na cultura pop da época que ele adorava: o fim do século XX. E, durante anos nessa busca, milhões descobriram outra válvula de escape, estudando de modo obsessivo os símbolos de Halliday. Como muitas pessoas, ele discute os detalhes da obra de John Hughes, joga Pac-Man e canta as músicas do Devo enquanto ganha terreno no Oasis, assim encontrando o primeiro desafio. De repente, o mundo todo se volta para acompanhar seus passos, e milhares de competidores se unem na busca, entre eles, jogadores poderosos e dispostos a cometer assassinatos para tirar Wade do caminho. Agora, a única maneira de Wade sobreviver e proteger tudo que ele conhece é vencer, mas para isso, talvez tenha que deixar para trás sua perfeita existência virtual e encarar a vida e o amor no mundo real do qual ele sempre fugiu desesperadamente.

Desde que a LeYa anunciou o lançamento desse livro fiquei muito ansiosa para ler. Todo mundo que conheço falou muito bem do livro e fiquei imaginando como o autor integrou a década de 80 em uma história que se passa no futuro. Ou o autor era muito bom pesquisador ou o mais óbvio um nerd tradicional de primeira classe. Ernest Cline é roteirista e usa de todos os tipos de referências para construir uma história muito boa para um público específico, mas que sendo realista pode não agradar a todos os leitores.

Wade Watts é um garoto órfão que vive em um trailer encardido com a tia. São tempos difíceis, a crise dos combustíveis devastou a economia e levou junto o social. Emprego é coisa rara, carros são abandonados aos montes e o planeta terra está em uma decadência mascarada. O único refúgio seguro para Wade é o OASIS, um universo de imersão virtual que o mundo inteiro aprendeu a usar como um escape para a vida e para facilitar a vida em um planeta cada vez pior. O OASIS foi criado por Halliday em 2012 e rapidamente se tornou um novo conceito em tudo. As pessoas estudam, fazem negócios, compras, tem relacionamento, e vários planetas com corporações foram criados. É um novo mundo. Com avatares bem reais e recursos surpreendentes a experiência é assustadoramente próxima e até melhor do que a realidade. Wade estuda em Ludus, um planeta apenas de escolas. Estudo de graça. Ele está quase formando e usa o aparelho da escola para acessar o OASIS. A única coisa paga no OASIS é o transporte para outros países e como Wade não tem um tostão furado se contenta em passar longas horas em Ludus, na biblioteca, conversando com seu melhor amigo Aech ou se dedicando a busca do ovo da melhor maneira que pode: acumulando conhecimento sobre Halliday.

Quando Halliday morreu deixou um vídeo e um manual que instruíam a todos na busca pelo ovo. Não sei se todos estão familiarizados com o termo "easter eggs". É como chamam qualquer coisa oculta em um jogo, sistema, filmes. Por ex. uma foto que aparece no episódio daquela série de que você gosta muito pode ser um easter egg. Uma pista para o próximo episódio, ou o nome de um produtor. No livro Halliday escondeu um desses dentro do OASIS, e quem encontrasse ficaria com toda sua fortuna e o controle do OASIS. Seria o novo Halliday. Wade assim como muitos entraram na busca e por destino ou sorte Wade foi o primeiro a encontrar a chave de bronze. E é a partir daí que a trama começa a se desenvolver.

A história possui uma narrativa muito bem trabalhada no lado visual, sendo a ambientação perfeita e muito criativa. A imersão que temos dentro do universo criado pelo autor é fantástica, uma qualidade que chama atenção e que deixou a leitura muito gostosa. O ritmo varia de acordo com as passagens e durante as descobertas de Wade senti como se estivesse assistindo a um filme. Cenas de ação bem elaboradas e um uso crível das referências. O autor deixa claro que é fã de muitos dos games, filmes e músicas usadas no livro e por isso as coloca muito bem na história. O grande x dessa questão é que nem todos os leitores vão reconhecer as referências, fazer a ligação com a história do livro e achar graça, encontrar a pista por trás daquilo. O ideal era ter colocado notas de rodapé em cada página, contextualizando a referência para quem não conhecesse. Eu não reconheci todas, mas não vi problema nisso até porque adoro quando um livro me faz ir atrás de algo novo, que não conhecia até o momento.

Games como Black Tiger, Dungeons of Daggorath, Joust, Tempest e Zork estão presentes na trama, assim como filmes são usados para várias coisas, de detalhes a citações relacionados à busca pelo ovo. De Volta Para o Futuro, Blade Runner, Laranja Mecânica, Os Caça-Fantasmas, Goonies, O Feitiço de Áquila, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, A Vingança dos Nerds e Negócio Arriscado são alguns deles. Diversos jogos do Atari também aparecem. O nome de Wade é uma referência, o nome dele dentro do OASIS, Parzival é uma referência, o nome de Art3mis idem. É possível obter bastante informação e entender bem as intenções do autor só prestando a atenção nessas referências. Por isso sugiro que pesquise tudo que estiver na dúvida, vale muito a pena mergulhar de vez na obra de Ernest Cline. E claro que tentei decifrar os enigmas para as chaves, bem legal essa possibilidade, de descobrir antes do personagem onde ele tem de ir.

Leitura rápida, bons personagens no geral e bastante criativo. Eu gostei muito do livro, e de tudo o que o autor fez. É uma história que ficaria perfeita no cinema se bem adaptada. O direito de adaptação foi comprado um dia antes de o livro ser publicado e o próprio autor está trabalhando no roteiro. Se sair vai ser coisa boa. A edição da LeYa está muito boa, a única coisa que senti e já ouvi outras pessoas falando é sobre a tradução. Alguns termos não precisavam ter sido traduzidos e pode parecer estranho, mas esse livro deveria ter sido traduzido por um nerd de primeira que não se importasse de acrescentar notas do tradutor falando das referências. Recomendado a todos. Um passeio diferente na ficção científica, algo plausível, personagens críveis, diversas "homenagens" e que deve ter deixado muita gente feliz. Um pouco de romance, mistério, ação e um cenário que me deixou sonhando com o dia que o Google ou qualquer outra empresa vai anunciar um projeto semelhante ao OASIS... Eu diria genial se não fosse parecer exagero, mas entrou para a lista de favoritos e estou esperando que o autor se aventura mais uma vez na literatura. Leiam, quebrem a cabeça e se divirtam com a caça ao ovo de Halliday. Até mais!

21/06/2012

Resenha - A Menina Que Navegou ao Reino Encantado


Nome:  A Menina Que Navegou ao Reino Encantado
No Original: The Girl Who Circumnavigated Fairyland
Autor (a): Catherynne M. Valente
Páginas: 280
Editora: LeYa
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: Setembro é uma menina que sonha com aventuras. Quando é convidada por um Vento Verde e um Leopardo para ir ao Reino Encantado, é claro que aceita. (Você não aceitaria?) Mas o Reino Encantado está em tumulto, e vai levar uma menina de doze anos, um dragão que adora livros, e um menino estranho e quase humano chamado Sábado, a derrotar uma Marquesa malvada e restaurar a ordem.


Assim que descobri o lançamento desse livro fiquei animada. Faz um tempo já que estou nessa onda de ler livros infantojuvenis do tipo e simplesmente sabia que precisava ler logo. Aliás, fui eu que o cadastrei no Skoob. Passou um tempo até que finalmente comprei o meu e estou maravilhada. A história é bonita e perfeita. A personagem central é uma coisa e todos os detalhes do Reino Encantado criado por Catherynne M. Valente são encantadores, com o perdão do trocadilho não intencional. Uma história única. Não é atoa que fez o sucesso que fez e ganhou um Nebula antes mesmo de ser publicado da forma tradicional. Ainda vem acompanhado de uma frase de Neil Gaiman que diz tudo sobre o livro.

Setembro é uma menina de 12 anos que vive em Omaha. Sua mãe trabalha em uma fábrica de aviões enquanto o pai, que era professor, recém-convocado para o exército está na guerra. Setembro passa as tardes cuidando da casa e lendo. Sua única companhia são os livros. Até que um dia enquanto lavava xícaras ela nota o Vento Verde no alto de sua janela. De gorro, casaco, cachecol e luvas verdes o Vento convidou Setembro a subir nas costas do Leopardo das Pequenas Brisas e partir para o Reino Encantado. Setembro aceitou sem pestanejar, afinal ela já havia lido histórias parecidas nos livros. Mesmo que ela recusasse acabaria indo com o Vento Verde. Sem explicar muita coisa eles se dirigem para a cidade Ocidental, lar dos ares severos. Onde Vento Verde e os outros ventos moravam. Uma cidade sob as nuvens, extremamente fria e congelante, com construções capengas e congeladas. Depois de fazer uma oferenda a Latitude e Longitude os dois conseguem passagem para o armário entre os mundos. Como criança arrebatada Setembro tem alguns privilégios, mas Vento Verde é barrado e ela tem que seguir em frente sozinha.

A partir daí a aventura de Setembro começa. Você pode estar pensando que é mais um livro onde uma criança salva o mundo de um vilão malvado de forma corajosa e que pouco lembra uma criança. Está enganado. Setembro é tão encantadora por isso. A personagem em momento nenhum deixou de ser uma criança de 12 anos. Não é tão criança, mas ela chora e se sente sozinha. Ela é inocente, valente e esperta. Tem consciência da situação em que se meteu e tenta ser corajosa a maior parte do tempo. Conhece os irmãos bruxos e parte em direção a Pandemônio, capital do Reino Encantado. No caminho ela conhece A-até-L, um dragão alado, que se diz filho de uma dragão com uma biblioteca. Não vou explicar mais para não estragar as surpresas. O "draladoteca" passa a acompanhá-la e através de caminhos surpreendentes Setembro vive uma aventura diferente, criativa e cativante.

O mundo criado pela autora vai além de tudo imaginado no gênero. O Reino Encantado vai além dos seres e dos animais extraordinários. O reino está sob o reinado rígido da Marquesa e temos impostos, leis, escravidão e outros assuntos fortes. A narração da autora é leve, descompromissada e envolvente. É possível notar algumas referências a outros livros infantis. Todas bem colocadas e oportunas, muitas delas me fizeram rir. Usando do bom humor e de cenários completamente encantadores o livro nos transporta para uma história linda que conquista do mais novo ao mais velho. O tom de humor lembra um pouco Neil Gaiman, mas muito menos sombrio. Apesar de você pensar que é mais do "salve o mundo", lhe garanto que não é.

De rebanhos de bicicletas a uma cidade que vive eternamente no Halloween passando por uma cidade toda feita de tecido até uma ilha de pessoas partidas ao meio. Leitura rápida muito gostosa. Catherynne M. Valente tem uma escrita imaginativa, que flui e consegue preencher todos os recantos da imaginação. Seres totalmente novos e diferentes. Personagens bem elaborados, fiéis as suas características e uma trama diferente para uma jornada. O final foi surpreendente e bem diferente do que se espera para livros. Como Setembro mesmo disse a aventura dela não tinha uma missão definida e é no fim que percebemos isso. É nesse mesmo fim que torcemos para ter mais e mais de Setembro e A-até-L. É uma história para ler uma, duas, infinitas vezes. As ilustrações no início dos capítulos com as pequenas introduções dão o toque final ao livro. A cereja por cima de um bolo excelente.

A edição da LeYa está linda, a fonte do texto é diferente e agradável de ler. A capa foi mantida e não tem muito que dizer, só estranhei a falta da última folha em branco antes da capa. Adoraria ver esse livro adaptado para o cinema e não duvido que vá demorar. Ficaria muito bom tanto filme normal como animação. A autora até já deu uma entrevista falando sobre que atores gostariam de ver no filme e ela ganhou mais ainda no meu conceito quando sugeriu David Tennant para um dos personagens. Mas isso não vem ao caso. Teria que ser um filme que investisse no visual, porque os cenários do livro são tão lindos, complexos e imaginativos que merece o máximo de atenção. Enfim. Leiam, por favor, leiam! Se encantem e se apaixonem por Setembro e claro pelo Draladoteca. Viagem nessa história fabulosa. Recomendado para todos que adoram livros, aventuras e ainda são capazes de imaginar verdadeiramente. Não preciso dizer que entrou para minha restrita lista de favoritos não é? Confira algumas imagens do livro: um, dois, três e quatro. Até mais!

03/04/2012

Resenha - Ladrão de Olhos


Nome: Ladrão de Olhos
No Original: Peter Nimble and His Fantastic Eyes
Autor (a): Jonathan Auxier
Páginas: 424
Editora: LeYa
Comprar: Submarino - Siciliano - Saraiva - Cultura
Sinopse: Um pequeno órfão cego que rouba para sobreviver nas ruas de Londres pode se tornar um herói? Para vocês que não conhecem nada sobre crianças cegas, saibam que dão os melhores ladrões. O que o destino reserva a uma criança cega e órfã, que usa seus dotes para roubar todo tipo de objeto de qualquer tipo de pessoa? Uma criança que dorme em um porão escuro e frio durante o dia e é obrigada a sair furtivamente à noite para cometer seus delitos e, assim, sobreviver? O que o destino reserva a um garoto de dez anos que já é considerado o maior ladrão que já nasceu? O destino, caro leitor, reserva a essa pobre criatura três olhos mágicos, que irão levá-lo a uma viagem inesquecível, na qual inimigos e estranhas criaturas estarão à espreita em lugares completamente deslumbrantes e magníficos! O destino lhe reserva um amigo que estará por perto sempre que precisar e aventuras que farão de Peter Nimble, o órfão, o cego, o pobre coitado, um dos maiores heróis que já existiu!

Assim que soube do lançamento de "Ladrão de Olhos" fiquei curiosa para ler, afinal eu gosto bastante de livros do tipo. No estilo conto de fadas moderno. O mais intrigante, no entanto foi o fato de o protagonista ser cego. A curiosidade foi tanta que o livro mal tinha sido lançado e eu já tinha comprado o meu. Após 424 páginas posso dizer que não fui precipitada ao querer tão avidamente ler esse livro. Jonathan Auxier criou uma história encantadora e um personagem extraordinário. Uma história fantástica e uma edição linda da editora LeYa.

Certa vez um bebê foi encontrado dentro de uma cesta boiando perto de uma embarcação com um corvo empoleirado. Os marinheiros recolheram o bebê e perceberam que mais um pouco e o corvo tinha comido a criança, seus olhos já estavam perfurados. A criança recebeu o nome de Peter Nimble e sem lar acabou amamentado por uma gata que de certa forma cuidou de Peter até que um trágico acontecimento separou os dois. Nessa idade ele começou a se destacar no meio da multidão por sua habilidade para sobreviver. Com seus dedinhos ágeis Peter logo começou a roubar itens necessários como roupa, comida e uma venda para os buracos dos olhos. Aos três anos ele já era uma ameaça conhecida para os vendedores, mas muito antes de os guardas serem alertados Peter já estava longe. O problema disso tudo é que as chances de ser adotadas eram cada vez menores. Bons cidadãos não adotavam meninos acostumados a roubar para viver. Foi então que Peter conheceu Sr. Seamus, um empreendedor segundo ele dizia. Ao notar o talento do menino de surrupiar as coisas sem ser notado Seamus logo tratou de convidar Peter para viver em sua mansão, com seu super cachorro, onde eles seriam sócios.

Peter aceitou, vendo a chance de ter uma casa, cama e comida sempre. Contudo não tinha mansão nenhuma, muito menos um super cachorro. Seamus tratou de ensinar todos os truques da ladroagem para Peter e torturava o menino sempre que podia com ameaças. O deixava sem comida. Se Peter quisesse comer deveria abrir os cadeados apenas com as mãos. Muitos anos se passaram e Peter foi vivendo essa vida miserável. Roubos na calada na noite, maus tratos de Sr. Seamus e aguentando o pior cachorro de todos. Ele se tornou um ladrão muito habilidoso e sendo cego aguçou seus outros sentidos. Era como enxergar através do olfato. Foi por isso que se aproximou do cacheiro viajante e se sua carruagem repleta de tesouros guardados por muitos cadeados. Mal sabia Peter Nimble que ao roubar aquela caixa com seis supostos "ovos" ele estaria entrando na maior aventura de sua vida. Aquela aventura que mostraria a ele o valor da amizade, da inteligência e devolveria a Peter o lado bom da vida. A partir daquele roubo tudo mudaria e ele descobriria muito mais sobre ele do que jamais imaginou.

A narração de Auxier é uma coisa de tão boa de ler e a possui uma característica que costumo notar em livros escritos por autores que são também roteiristas. A história flui tão bem que o passar das páginas é imperceptível e Peter é um garoto tão sofrido, tão inteligente que fica impossível não se prender a história dele. Com descrições exatas e sem exageros o autor deixa nítido aos olhos do leitor esse mundo fantástico que criou. A mágica aqui não é comum, é um mundo que mistura a ciência e razão com pequenos detalhes como bichos falantes e outras coisas mais que não posso citar sem estragar a surpresa. A viagem de Peter com Sr. Tode é deliciosa de acompanhar e o desenrolar da trama é tão bom que já estou imaginando se aquele final é o começo de um novo livro. O mundo criado é tão vasto que seria desperdício não ter mais nada nesse cenário.

Adoro quando o narrador "conversa" com o leitor. Através das observações do autor vamos acompanhando o progresso da história. Usando um exemplo que a maioria vai entender é como se tivéssemos dentro da penseira com Dumbledore, no caso com o autor, acompanhando de perto a história. É essa a sensação que tive. Como se ali, alguns passos adiante estivessem Peter, Sir Tode, Peg, o corvo Simon e todos os outros. Falando em corvos adorei os personagens. Simon, capitão Amon, todos eles. Só achei que Peter e Sir Tode poderiam ter sido mais espertos. Acabaram dobrando os problemas ao confiar na horda de ladrões ao invés de confiar nos corvos.

Enfim, um livro encantador em vários os sentidos. Claro que depois que ele conheceu Peg e a história foi contada não ficou difícil decifrar a charada, mas isso não estragou em nada. Pelo contrário, foi muito bom acompanhar Peter nessa descoberta que mudaria tudo. É um conto de fadas moderno, poderia dizer uma fábula, mas elas têm que ter alguma lição e apesar do livro se mostrar muito belo em sua essência não tem uma lição de moral exata. O livro também tem uma pequena veia no steampunk, gênero que mistura máquinas e engrenagens no passado. "Ladrão de Olhos" não é um livro para exigentes, é um livro para quem consegue ver a beleza em pequenas coisas. A história de um garoto órfão, cego, ladrão, mas leal e inteligente. Adoraria ver o livro transformado em filme. Daria um belíssimo filme. A edição da LeYa é linda. As folhas escurecidas em um tom de cinza deram o clima certo ao livro. Eu adoro as cores da capa e foi ótimo vê-las juntas em um livro. Recomendo o livro a todos, de crianças a adultos. Tenho certeza que Peter Nimble vai conquistar-te nas primeiras páginas. Que saudade de ser criança... Até mais!

02/02/2012

Resenha - A Garota dos Pés de Vidro


Nome: A Garota dos Pés de Vidro
No Original: The Girl with Glass Feet
Autor (a): Ali Shaw
Páginas: 288
Editora: LeYa
Comprar: Submarino - Leitura - Travessa - Walmart
Sinopse: Cenários cinematográficos, paisagens paradisíacas, pântanos congelados com animais transformados em vidro, florestas brancas, penhascos monocromáticos, um oceano de baleias, lendas e águas-vivas. Este é o universo fantástico de Ali Shaw, autor britânico que renova as fábulas e cria uma inusitada história de amor. Midas é um tímido fotógrafo ilhéu. Ida é uma jovem aventureira que vem ao arquipélago de Saint Hauda´s Land buscar a cura para sua misteriosa doença. Ela está se transformando em vidro e juntos buscam uma solução. O que eles mais precisam é de tempo - e o tempo está passando rápido. Será que vão encontrar uma maneira de evitar a propagação do vidro?
Um livro no mínimo curioso para falar a verdade. Quando comprei, baseado na sinopse, esperava uma fantasia romântica e não um livro tão suspenso. É uma história onde tudo é acrescentado, o cenário diferente, os seres fantásticos, as possibilidades são infinitas, mas ao final você percebe que nem a metade de tudo foi utilizada. Na verdade são tantas coisas mal explicadas que não sei por onde começar.

A sensação que ficou após ler esse livro foi que alguém criou um cenário inteiro e estava tudo pronto para rodar o filme, mas perderam as páginas do roteiro e só filmaram as partes que sobraram. Ou seja, ficou faltando muitas partes. A história começa de maneira promissora, mas para por aí. Midas é um personagem atordoado pelo passado, vive remoendo o fato de ter o mesmo nome do pai que se suicidou de maneira tão covarde. Ele é um fotógrafo frustrado e sem perspectiva Em uma manhã na floresta com sua câmera fotográfica ele começa a seguir uma luz branca que se dissolve no lago e é aí que encontra Ida pela primeira vez sentada em uma pedra. Tão frágil e monocromática que ele fica encantado. Combina com a passagem do inverno e com o cenário, mas ele estranha uma pessoa tão frágil com botas tão grandes e desajeitadas. A amizade dos dois surge e em pouco tempo estavam passando dias e noites juntos. Em uma dessas Midas não resisti a fotografar Ida. Aproveita o silêncio da noite e retira as meias dela tomado pela curiosidade. A surpresa que sente ao ver os pés de vidro é uma surpresa diferente.

A partir daí Ida compartilha com ele sua história. Ela está convencida de que um homem que ela encontrou na ilha anos atrás poderá ajudá-la. Midas mente para Ida sobre conhecer Henry Fuwa e da pior maneira descobre que o pouco que se sabe sobre a doença não é suficiente para curá-la. Em uma narrativa lenta e cheia de idas e vindas ao passado passamos por várias histórias picadas e nada do que realmente interessa. A causa da doença. Tive a impressão que o autor tentou deixar subentendido que o tal animal todo branco, que emite a luz branca que Midas viu na floresta fosse responsável pela doença, mas é mera suposição. Várias coisas que eu queria que viesse a tona ficaram sem explorar. Por ex. a causa do suicídio do pai de Midas. O segredo que a mulher que tentou curar Ida tinha para contar a Midas, isso sem falar no segredo de Henry Fuwa.

Acredito que o livro quis transparecer as inevitabilidades da vida. O amor que fadado a terminar e o quão curto é o nosso tempo. As esperanças de cura para ambos os personagens, e a cura a partir da perda. Contudo ficou tudo tão confuso em certo ponto que a mensagem do livro tem que ser arrancada e com muito boa vontade porque quando chega àquele final tudo desmorona. Grande parte do que descobri sobre o plano de fundo da história são suposições a partir de detalhes. A edição da LeYa ficou linda, é um livro que chama atenção assim que você bate o olho nele, com o livro fechado as bordas das folhas são cinza escura. Tanto que assim que ele chegou tive que abrir o plástico e sanar minha curiosidade sobre a cor das folhas. O que realmente eu achei do livro? É uma bela história, mas mal aproveitada. A história não é ruim, aliás, acredito que esse é um livro que só lendo para entender. Muitos vão amar outros assim como eu vão ficar com essa sensação de que está faltando algo. Um livro bom que poderia ser perfeito.

05/10/2011

Guia de Lançamentos - LeYa, Fantasy, Casa da Palavra e Quinta Essência

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Última atualização: 26/06/2015

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